SEQUESTRO
Vítima em liberdade e quatro presos

  Friday, 17 November, 2017

O sequestro de um adolescente de 15 anos mobilizou a Polícia Civil em Uruguaiana desde o meio dia da última terça-feira, 14/11. Ele retornava para casa quando foi abordado exatamente às 12h53min, na Rua Tiradentes, próximo a agência dos Correios, e forçado a embarcar em automóvel Renault Logan prata, ação que foi registrada por câmeras de segurança da região.

Cerca de 20 minutos depois, a mãe do menino recebeu a primeira ligação dizendo que ele estava bem, mas seria morto se não fosse pago um resgate de R$ 200 mil. Ela procurou a polícia.


Maikon Sanhudo da Rosa e Elbio Campelo

Investigação

Por jurisdição, a investigação coube à Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente, chefiada pelo delegado Enio Tassi, mas mobilizou o efetivo completo da Especializada em Furtos, Roubos, Entorpecentes e Captura – Defrec, e da Especializada no Atendimentoà Mulher – Deam, para cumprimento dos mandados.

Enquanto uma equipe confirmava que, de fato, estava em andamento um crime de extorsão mediante sequestro, outra equipe levantava informações sobre a família, suas relações, e seus bens; e outra levantava imagens de câmeras de segurança no trajeto entre a escola e sua residência. De posse das imagens, foi identificado o veículo do sequestro, e que era de locação, e fora alugado para uma mulher. Cerca de 1h30min após o rapto, já estavam identificados os quatro suspeitos presos.

O carro, que já havia sido devolvido à locadora, foi discretamente apreendido e periciado ainda na noite de terça-feira. Foram encontradas impressões digitais e lacres plásticos que a polícia acredita, foram usados para amarrar o adolescente.

Identificada a locatária do veículo, Elisângela Fructos Campelo, a polícia imediatamente percebeu que havia longa relação,
de confiança decorrente de trabalho, entre as famílias Campelo e da vítima, tanto que a própria irmã de Elisângela, Elisete Fructos Campelo, era empregada doméstica na casa da família, embora há cerca de apenas 10 dias. A partir dessa conexão, mais dois membros da quadrilha foram identificados: um irmão das duas mulheres, Élbio Fructos Campelo, conhecido como ‘Cabeça Quadrada’, e o marido de Elisângela, Maikon Sanhudo da Rosa, ambos com passagens pela polícia.

A polícia também atentou para um negócio fechado pelo pai, que é produtor rural, em Santana do Livramento, cujo valor se aproximava do valor do resgate.

Ao longo da agonia, policiais se revezavam acompanhando a família, e para orientar as negociações foi deslocado de Porto Alegre um especialista em sequestros, do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic). Os pais também foram retirados da residência para um hotel da cidade.

Mandados

Identificados os criminosos, a Polícia solicitou ao Judiciário medidas cautelares para suporte à investigação, como a quebra do sigilo e interceptação dos telefones celulares da mãe, do pai e da própria vítima, celular este a partir do qual os sequestradores fizeram o primeiro contato. Com parecer favorável do promotor de Justiça Diogo de Barros, as primeiras medidas foram rapidamente deferidas. A partir das novas informações que aportaram a partir do “grampo”, houveram novas representação, dessa vez por mandados de busca e apreensão, e prisão temporária dos suspeitos, que foram deferidas ainda na madrugada de quarta-feira, 15/11, pelo juiz plantonista, Carlos Faraco.

Agonia

Mesmo de posse dos mandados, mas sem a certeza do local do cativeiro, a polícia optou por esperar, mantendo equipes de campana em cinco endereços prováveis de cativeiro, e na vigilância telefônica. A discrição da operação era a grande preocupação, a fim de evitar que ações pudessem colocar a vida e integridade física da vítima em perigo. “Várias estratégias foram pensadas, mas optou-se por não efetuar a prisão dos envolvidos naquele momento em vista de a vítima ainda permanecer sob poder dos sequestradores. Houve pressão na forma de cercos aos locais e perturbação dos sequestradores”, diz Tassi.

Silêncio

Para garantir a discrição da operação, os veículos de comunicação jornal CIDADE, Correio do Povo e Diário da Fronteira, rádios Charrua, São Miguel, Imbaá, El Shadday, Jovem Hits e Rede Cidade, e RBS TV, cotejaram e foram unânimes na opção de prejudicar a informação ao público, mesmo cientes do grande volume de boatos e especulações que se propagavam por redes sociais e grupos de troca de mensagens. Para o diretor do Jornal CIDADE, Nilson Corrêa, a decisão foi de bom senso e tomada levando-se em conta um bem maior, que é vida que estava em risco.

Liberdade

Por volta das 20h30min, o trabalho incessante dos policiais surtiu efeito e o adolescente foi libertado. De acordo com o delegado Tassi, o jovem foi trazido do cativeiro até o centro da cidade, e libertado sem pagamento de resgate, na Rua Santana, entre Treze de Maio e General Vitorino, próximo ao local do rapto.

Ainda em estado de choque, o adolescente foi imediatamente levado ao encontro da família e conversou informalmente com o Delegado, que preferiu não tomar a termo seu testemunho naquele dia. Ele apresentava lesões nos pulsos e tornozelos, decorrentes das amarras com as quais permaneceu durante as 33 horas em que foi mantido em cativeiro. Neste período, ele permaneceu vendado, sendo alimentado com ração de cachorro e água quente.

Prisões

Com o menor em segurança, a Polícia desencadeou os cumprimentos dos mandados de busca e apreensão, e de prisão temporária dos suspeitos. Cinco endereços foram alvo das buscas: na Rua Ramão Prines de Oliveira, bairro Cidade Nova; na Dr. Maia, Centro; na quadra B do conjunto habitacional João Paulo II; na quadra C da Prolar; e na Rua Dr. Gonçalves Viana, bairro Rio Branco. Além das casas dos suspeitos, a casa de um irmão deles também foi vistoriada. Ele prestou depoimento na tarde de ontem, na Defrec.

Até às 22h de quarta-feira, 15/11, estavam presos Maikon Sanhudo da Rosa,Élbio Fructos Campelo e Elisângela Fructos Campelo, localizados em três locais diferentes. Elisete Fructos Campelo passou a noite e a manhã de ontem na condição de foragida, e se apresentouà Defrec acompanhada pelo advogado Mauro Lemes, onde foi ouvida e encaminhada à Penitenciária Modulada Estadual de Uruguaiana (PMEU).

Inquérito

O delegado Enio Tassi disse que os serviços especializados da Defrec e da DPCA reuniram elementos suficientes para identificação dos sequestradores e modo como o grupo agiu, mas aguarda os laudos periciais do veículo utilizado, e investiga a participação de outras pessoas no crime. A vítima será ouvida oficialmente na próxima semana, e em 30 dias o Inquérito será concluído.

Se confirmada a autoria, os suspeitos serão acusados de extorsão mediante sequestro, crime hediondo, concorrendo de 24 a 30 anos de detenção, maior pena do Código Penal, e poderão ser também acusados de associação criminosa.

Comente esta notícia Gabriela Barcellos/Jornal Cidade

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